Mobilidade Sustentável

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9 tendências em mobilidade urbana sustentável para 2026

Do redesenho das cidades à inteligência aplicada às frotas, especialistas em cidades inteligentes analisam os movimentos em curso e os impactos dessas transformações na dinâmica dos deslocamentos e na gestão da mobilidade

Comitiva Oficial Brasileira no Smart City Expo Congress Barcelona, em trajeto a pé no distrito 22@, polo de inovação e tecnologia da cidade (Foto: Liana Aguiar)

A mobilidade ocupa papel central na agenda das cidades inteligentes, que avançam em projetos para tornar os deslocamentos mais eficientes e sustentáveis. Para compreender a dimensão dessas transformações, este artigo reúne análises de três especialistas em soluções para cidades inteligentes presentes no Smart City Expo World Congress Barcelona, no final de 2025.

O primeiro entrevistado é Carlos Olsen, CEO da Global Business Innovation Intelligence, que organiza a visita da Comitiva Oficial Brasileira à feira internacional das cidades inteligentes. Olsen analisa as tendências ligadas à reconfiguração urbana e aos impactos territoriais dos deslocamentos.

O segundo é Beto Marcelino, sócio-fundador e diretor de relações governamentais do iCities, hub de cidades inteligentes detentor da chancela da Fira Barcelona no Brasil. Marcelino concentra sua avaliação nas mudanças estruturais do transporte público, da caminhabilidade e da eletromobilidade.

O terceiro é Luciano Pezza Cintrão, diretor Comercial de Cidades Inteligentes da Valid S.A., empresa que atua no desenvolvimento de soluções de conectividade e Internet das Coisas (IoT). Cintrão amplia o olhar para a mobilidade corporativa, com foco em tecnologias embarcadas e novos modelos de negócio aplicados à gestão de frotas.

Veja as tendências que já orientam a evolução da mobilidade e devem ganhar força em 2026 e nos próximos anos.

Transformações no espaço urbano

Carlos Olsen

“A tendência é usar a tecnologia para proporcionar um transporte urbano mais eficiente e que traga mais conforto ao cidadão”

Carlos Olsen

1 – Áreas urbanas se consolidam como ecossistemas de uso misto

As áreas urbanas passam por transformações para concentrar tudo em uma mesma região: moradia, trabalho, estudo, serviços e lazer. Esse tipo de projeto é conduzido por parcerias entre iniciativa privada e poder público e consiste em requalificar espaços antes pouco aproveitados, criando novos polos urbanos e impulsionando o desenvolvimento do entorno.

Um exemplo é o Roca City, um projeto de regeneração urbana impulsionado pelo Grupo Roca, na Espanha, que propõe a criação de ecobairros planejados com foco em sustentabilidade, eficiência energética e requalificação ambiental do território. “Nesse sentido, avança a transformação de áreas urbanas em espaços onde o cidadão encontra tudo o que precisa. As pessoas querem trabalhar, estudar, se divertir e residir na mesma região”, diz Carlos Olsen.

Segundo Olsen, o projeto Roca City evidencia como o poder de investimento da iniciativa privada pode impulsionar o desenvolvimento urbano, por meio de parcerias com prefeituras para a construção de conjuntos habitacionais e a ampliação de áreas verdes. A proposta também prevê a criação de infraestrutura orientada ao futuro das cidades.

Esse modelo urbanístico também impacta a mobilidade ao reduzir a necessidade de deslocamentos longos e favorecer trajetos de curta distância.

2 – Regiões centrais retomam protagonismo e se convertem em polos de inovação

Os centros urbanos estão voltando ao foco do planejamento das cidades, com projetos de revitalização que recuperam áreas degradadas e reativam a dinâmica econômica dessas regiões, muitas vezes associados à melhoria da mobilidade.

Olsen lembra que as cidades passaram por uma fase de forte expansão urbana, marcada pela facilidade de acesso de carro e pela valorização das áreas periféricas. Nesse contexto, cita como exemplos cidades que voltaram a reconhecer o valor estratégico de seus centros e vêm conduzindo projetos de transformação de áreas abandonadas em ambientes de inovação e convivência urbana: Barcelona, pelo projeto das “Superilles” (superquadras); Paris, pela estratégia da “Cidade de 15 minutos”; e Curitiba, pelo planejamento urbano integrado ao BRT.

“Em Barcelona, o conceito das ‘Superilles’, que altera as prioridades do carro para o cidadão, e a transformação da Praça das Glòries, onde antes havia um viaduto e hoje existe uma praça com nível de inclusão espetacular, são exemplos claros. É uma demonstração de quanto o urbanismo influencia diretamente a mobilidade”, aponta Olsen.

No distrito 22@, a requalificação urbana integrou polos de inovação a corredores verdes e áreas ajardinadas no bairro de Poblenou, em Barcelona (Foto: Liana Aguiar)

3 – Tecnologia passa a integrar o transporte público e melhora a experiência do usuário

A inserção de tecnologias no sistema de mobilidade vem ampliando a qualidade de vida nas cidades. A digitalização de processos e a conectividade dos modais aumentam a eficiência, a transparência e a qualidade do serviço ao cidadão, segundo Olsen.

Como exemplo, ele cita a Transports Metropolitans de Barcelona (TMB), operadora do transporte coletivo na capital catalã e referência europeia no setor. A empresa incorporou tecnologias em todo o sistema de mobilidade, desde aplicativos que informam rotas, horários e pontos de parada aos usuários até a adoção de ônibus elétricos a bateria e a hidrogênio na frota.

“A tendência é usar a tecnologia para proporcionar um transporte urbano mais eficiente e que traga mais conforto ao cidadão”, afirma Olsen.

Infraestrutura e novos modais

“Se houvesse maior flexibilidade nos horários de trabalho, isso já seria uma inovação capaz de mudar bastante a dinâmica da mobilidade”

Beto Marcelino

4 – Gestores públicos ampliam investimentos no transporte coletivo

Cada vez mais gestores públicos ampliam os investimentos em transporte coletivo como resposta à saturação do trânsito nas grandes cidades.

Beto Marcelino observa que a melhoria do transporte público em diferentes cidades do mundo evidencia uma mudança de prioridade urbana, com foco crescente no cidadão. Para ele, a pressão do trânsito está levando o usuário a rever a lógica da posse do carro, e a prioridade passa a ser a rapidez no deslocamento.

Nesse contexto, ganham força projetos voltados à melhoria da experiência do passageiro, com recursos como climatização e conectividade a bordo.

Marcelino assinala ainda que, além da infraestrutura, há fatores estruturais que impactam a eficiência do sistema, como a concentração de deslocamentos nos horários de pico. “Se houvesse maior flexibilidade nos horários de trabalho, isso já seria uma inovação capaz de mudar bastante a dinâmica da mobilidade”, diz.

5 – A caminhabilidade avança no planejamento urbano

A melhoria da infraestrutura para pedestres avança como prioridade nas cidades inteligentes, com projetos que ampliam a acessibilidade das calçadas e incorporam sinalização tátil e alertas sonoros para garantir deslocamentos mais seguros e inclusivos.

Apesar da existência de projetos de melhoria das calçadas e incentivo à caminhabilidade em cidades inteligentes mundo afora, grande parte dos municípios da América do Sul ainda carece de políticas dirigidas ao usuário do espaço público. O conceito de cidade inteligente parte da ideia de oferecer soluções centradas nas pessoas.

“Se a iniciativa privada entender que pode apoiar a gestão pública com projetos voltados a melhorar a qualidade de vida de quem circula nas ruas, acredito que passaremos a ter mais cidades que estimulam as pessoas a caminhar, andar de bicicleta, usar o transporte público”, assinala Marcelino.

Vista aérea da nova Plaça de les Glòries, espaço remodelado para ser um pulmão verde para a cidade (Foto: Droneit/Ajuntament de Barcelona)

6 – A micromobilidade se expande nos deslocamentos de curta distância

Enquanto o avanço da caminhabilidade está diretamente ligado à dimensão da infraestrutura, a expansão da micromobilidade evidencia uma mudança no modal de transporte, com o crescimento de bicicletas e patinetes como alternativas para deslocamentos curtos.

Para Marcelino, a eletrificação de modais leves, como bicicletas e patinetes elétricos, impulsiona o uso da micromobilidade nas cidades. Mas esse avanço precisa ser acompanhado por infraestrutura adequada, especialmente calçadas e espaços seguros, para reduzir acidentes e sustentar o crescimento desse modelo de deslocamento.

“Vai chegar uma hora em que, para não colapsar o próprio setor público, o governo precisará olhar para formas de melhorar a infraestrutura e dar encaminhamento a outros tipos de modais”, alerta Marcelino. “Ou fechamos algumas ruas e começamos a orientar as pessoas a caminhar, aderir à micromobilidade, usar shuttles, veículos autônomos compactos, ou haverá colapso nas cidades.”

7 – Veículos eletrificados se popularizam, apesar dos gargalos de infraestrutura

O portfólio de veículos eletrificados hoje está mais variado e com faixas de preço mais acessíveis. A maior oferta de modelos 100% elétricos ou híbridos indica um avanço gradual da eletromobilidade, impulsionado tanto pela evolução tecnológica quanto pela mudança de comportamento do consumidor.

Por outro lado, Marcelino adverte que a expansão da eletromobilidade ainda esbarra na ausência de políticas públicas eficazes para solucionar a infraestrutura de recarga. Segundo ele, muitos usuários enfrentam dificuldades para abastecer os veículos elétricos, seja pela escassez de pontos de recarga, seja pelo tempo de espera.

“Falta política pública e falta também que a iniciativa privada enxergue isso como uma oportunidade de levar o tema ao Congresso e ao debate político, para avançarmos na infraestrutura de eletromobilidade, com mais eletrocarregadores”, pontua Marcelino.

Gestão e inovação corporativa

“Na mobilidade corporativa, tudo ficará mais inteligente e conectado”

Luciano Pezza Cintrão

8 – Tecnologias embarcadas ampliam a inteligência operacional das frotas

Tecnologias embarcadas ampliam a inteligência operacional da mobilidade corporativa. Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial (IA) e telemetria permitem integrar dados em tempo real, monitorar o desempenho dos veículos e otimizar rotas, manutenção e o uso das frotas.

A IoT desponta como aliada da mobilidade corporativa ao viabilizar a conexão entre veículos, sensores e sistemas, mesmo em operações distribuídas por diferentes regiões ou países. “Na mobilidade corporativa, tudo ficará mais inteligente e conectado”, analisa Luciano Pezza Cintrão, diretor Comercial de Cidades Inteligentes da Valid S.A.

Segundo ele, a IoT permite acompanhar à distância a localização dos veículos, identificar necessidades de manutenção e monitorar a condução, contribuindo para reduzir custos e ampliar a segurança. Já a Inteligência Artificial atua como camada analítica, utilizando esses dados para prever falhas, otimizar rotas e apoiar a tomada de decisão.

“O objetivo dessas tecnologias é fazer a frota funcionar melhor, gastar menos e proteger os dados de todo mundo. A conexão com a internet é o que vai ligar todas essas novidades”, ressalta Cintrão.

O especialista pondera que, para pleno funcionamento, é necessário garantir conectividade estável, inclusive em áreas remotas, além de adaptação às legislações locais.

9 – Soluções por assinatura e serviço ganham espaço na mobilidade corporativa

Soluções como Fleet as a Service (FaaS), Mobility as a Service (MaaS) e carros por assinatura passam a substituir a lógica da posse por contratos mais flexíveis, ajustados à demanda e orientados ao uso.

Cintrão explica que o FaaS funciona como uma “Netflix dos carros”. “Em vez de comprar uma frota, a empresa paga uma assinatura mensal e usa os veículos e serviços que precisar”, compara.

Já no conceito de MaaS, a gestão de mobilidade é centralizada em uma única plataforma, permitindo à empresa integrar a frota própria a outros modais, como aplicativos de transporte, bicicletas compartilhadas ou vans corporativas, de acordo com a necessidade operacional.

Essa lógica baseada em serviço contribui para otimizar custos, ampliar a eficiência logística e dar mais previsibilidade à gestão da mobilidade corporativa.

O futuro em movimento

Ao olhar para o futuro, as tendências indicam uma mobilidade mais integrada, orientada por tecnologia e guiada pela sustentabilidade. A transformação passa pelo redesenho das cidades, pelo avanço da eletromobilidade, pelo uso intensivo de dados na gestão dos deslocamentos e pela adoção de novos modelos de negócio para as frotas. Para gestores de mobilidade, o momento é de rever estratégias e preparar a operação para um novo padrão de exigência do setor, alinhado a um ambiente urbano em rápida transformação.

Barcelona, laboratório de mobilidade ativa

A cidade de Barcelona, capital da Catalunha, consolidou-se como referência em modelos urbanos que priorizam a micromobilidade e a caminhabilidade. Dois projetos simbolizam essa transformação: a requalificação da Praça de Glòries e a implementação das superquadras.

Praça de Glòries: Antes um dos principais hubs viários da cidade, marcado por grandes viadutos e tráfego intenso, o espaço passou por uma profunda reconfiguração urbana. O tráfego foi rebaixado, com a construção de túneis, e a área de superfície foi convertida em uma praça pública acessível. “O projeto utilizou uma engenharia e uma arquitetura fascinantes, priorizando as pessoas nessa integração entre a Barcelona antiga e a nova, do distrito de inovação 22@”, diz Beto Marcelino, do iCities. A praça se tornou exemplo de urbanismo orientado à caminhabilidade, ao favorecer deslocamentos a pé e o uso de modais leves, com restrição ao tráfego de passagem.

Superilles: Já o conceito das “superquadras” reorganiza o tráfego ao agrupar quarteirões onde a circulação de veículos é limitada e o espaço público é devolvido aos pedestres. As áreas ganham mobiliário urbano, vegetação e espaços de convivência. “Parecem um pomar a céu aberto. As pessoas estão sentadas, há terra para as crianças brincarem. É um projeto desafiador e, muitas vezes, polêmico, mas acredito que as ‘Superilles’ estejam salvando Barcelona”, avalia Marcelino.

A Plaça de les Glòries materializa o novo modelo urbano de Barcelona, orientado à micromobilidade e à caminhabilidade

 

Liana Aguiar
Editora da revista AIAFANews

 

 

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