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“A guerra do combustível é vencida nas decisões que tornam a operação mais eficiente”

Rodrigo Ourique, diretor comercial da Powerfleet Brasil, analisa os resultados de estudo internacional sobre as estratégias adotadas por gestores de frotas para reduzir o consumo e os custos com combustível

A volatilidade dos preços dos combustíveis segue como um dos principais desafios para a gestão de frotas em diferentes mercados. Para entender como esse cenário vem impactando as operações e quais estratégias podem ajudar a proteger as margens, Rodrigo Ourique, diretor comercial da Powerfleet Brasil, apresenta nesta entrevista as principais conclusões do white paper “Panorama mundial: Como gestores de frota estão vencendo a guerra do combustível”, que a revista AIAFANews publica com exclusividade.

Elaborado pela Powerfleet, o estudo analisa os mercados do Reino Unido, Estados Unidos, Austrália e África do Sul e mostra por que a eficiência operacional pode ser mais determinante para a rentabilidade do que o próprio preço do combustível.

Quando o preço do diesel sobe, a reação mais comum é culpar o mercado. Por que essa visão é incompleta?

O mercado influencia o resultado, mas explica apenas parte da equação. Nenhum gestor consegue controlar o preço internacional do petróleo, o câmbio ou mudanças tributárias. O problema é que isso criou, durante muito tempo, uma sensação de impotência.

O estudo mostra que as operações que protegeram melhor suas margens não foram as que tentaram prever o próximo reajuste do diesel, mas as que entenderam quanto do consumo era consequência do mercado e quanto vinha das próprias decisões operacionais. A discussão, portanto, muda do preço para a eficiência: quanto desse aumento podemos compensar reduzindo desperdícios que já existiam antes da alta?


“As operações mais maduras já estão perguntando não apenas quanto custa o litro do diesel, mas quanto custa desperdiçar combustível”


O estudo analisa quatro mercados bastante diferentes. O que mais chamou atenção nessa comparação?

A expectativa era encontrar soluções muito diferentes, mas encontramos uma lógica semelhante. Reino Unido, Estados Unidos, Austrália e África do Sul têm realidades econômicas, legislações e modelos logísticos distintos, mas as operações mais preparadas começaram olhando para dentro.

Elas buscaram identificar desperdícios e entender quais variáveis realmente poderiam controlar. No Reino Unido, houve foco em otimização de rotas e redução da marcha lenta. Na Austrália, ganharam espaço programas de manutenção orientados por dados. Nos Estados Unidos, iniciativas de ecodireção com monitoramento em tempo real. Já na África do Sul, fatores como calibragem dos pneus e comportamento dos motoristas receberam atenção. O diferencial não estava necessariamente na tecnologia escolhida, que gerava maior impacto para cada operação.

Quais são os principais “vilões” do consumo que passam despercebidos?

O estudo identificou cinco fatores: roteirização ineficiente, marcha lenta não monitorada, pneus com pressão inadequada, manutenção reativa e direção agressiva. O problema é que normalmente as empresas olham apenas para o resultado final: quantos litros foram consumidos e quanto foi gasto. Esses indicadores mostram o efeito, mas não a causa.

O consumo excessivo geralmente nasce de pequenas ineficiências que se acumulam. Uma aceleração mais agressiva, alguns minutos extras de marcha lenta, uma rota que não é atualizada ou uma manutenção adiada podem parecer irrelevantes isoladamente. Quando isso se repete centenas de vezes, em dezenas ou centenas de veículos, o impacto aparece.

Que fator costuma surpreender mais os gestores?

O comportamento operacional. É comum associar imediatamente o aumento do consumo ao preço do diesel ou às características do veículo. Mas operações semelhantes, com veículos e trajetos parecidos, podem apresentar resultados completamente diferentes. A diferença está em como a operação acontece no dia a dia. Quando conectamos esses comportamentos aos dados de consumo, o combustível deixa de ser apenas uma despesa e passa a ser um indicador da qualidade da operação.

Então o combustível é consequência de decisões operacionais?

Exatamente. Essa é uma das principais mudanças de mentalidade que o estudo procura provocar. Quando uma empresa melhora a roteirização, reduz a marcha lenta, antecipa manutenções, acompanha padrões de condução e cria uma rotina baseada em dados, ela não está apenas economizando combustível. Está construindo uma operação mais eficiente.

O que mudou na relação entre eficiência de combustível e comportamento?

Mudou a forma de enxergar o problema. Antes, quando o consumo estava acima do esperado, a primeira hipótese era mecânica. Hoje sabemos que o comportamento operacional tem um papel muito maior. Não estamos falando apenas de como o motorista dirige, mas de como a rota é planejada, quanto tempo o veículo permanece em marcha lenta, como acontecem acelerações e frenagens, quando a manutenção é realizada e como a operação reage aos desvios.

A diferença é que comportamento pode ser acompanhado, orientado e melhorado. Preço do combustível, não. As operações mais maduras deixaram de administrar apenas ativos e passaram a administrar comportamento operacional.

A tecnologia, sozinha, é suficiente para reduzir o consumo?

Não. Tecnologia produz visibilidade; quem produz resultado são as pessoas. Se um alerta é gerado e ninguém age sobre ele, nada muda. Os dados precisam orientar conversas, treinamentos e decisões e fazer parte da rotina de gestão. É a combinação entre pessoas, processos e dados que cria resultados sustentáveis.

Qual é o principal aprendizado para os gestores brasileiros?

Os desafios mudam de um país para outro, mas a lógica da boa gestão é praticamente universal. As operações que conseguiram proteger suas margens deixaram de tratar o combustível apenas como um centro de custo e passaram a enxergá-lo como um indicador da eficiência operacional. Quando o consumo aumenta, a pergunta deixa de ser “quanto vamos gastar a mais?” e passa a ser “o que dentro da nossa operação explica esse aumento?”.

A volatilidade continuará existindo. O diferencial está em construir uma operação madura o suficiente para que essas oscilações tenham um impacto cada vez menor sobre o resultado.


“Os maiores ganhos surgem de pequenas decisões que deixam de ser tomadas no automático e passam a ser orientadas por informação”


Se pudesse recomendar apenas uma ação para um gestor preocupado com combustível, qual seria?

Eu começaria medindo aquilo que hoje ninguém está medindo. Escolha um indicador que ainda não faz parte da rotina – marcha lenta, comportamento de condução, eficiência das rotas ou recorrência de manutenção corretiva – e transforme esse dado em uma conversa recorrente com a equipe.

A melhoria começa quando aquilo que era invisível passa a ser discutido. Os maiores ganhos surgem de pequenas decisões que deixam de ser tomadas no automático e passam a ser orientadas por informação.

Daqui a cinco anos, a gestão de combustível ainda será uma discussão sobre preço?

Cada vez menos. O preço continuará importante, mas acredito que deixará de ocupar o centro da discussão. As operações mais maduras já estão perguntando não apenas quanto custa o litro do diesel, mas quanto custa desperdiçar combustível. Essa mudança leva naturalmente a discussões sobre comportamento, manutenção, planejamento, produtividade e qualidade da informação.

O combustível passa a refletir a maturidade da gestão. As empresas que conseguirem transformar dados em decisões rápidas, reduzir desperdícios antes que eles apareçam e criar uma cultura de melhoria contínua estarão mais preparadas para qualquer cenário de mercado.

No fim, a guerra do combustível não é vencida no posto de abastecimento. Ela é vencida todos os dias, nas decisões que tornam uma operação mais eficiente, previsível e inteligente.

 

Fotos: Powerfleet/Divulgação

 

Leia a íntegra do estudo da Powerfleet:

 

 

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