Gestor de Frotas do Ano 2025 nos Prêmios Frotas, Ricardo Capello, gerente de Gestão de Transporte e Mobilidade da Petrobras, avalia a evolução do setor

A área de frotas vive hoje um novo posicionamento, apoiado no uso de dados e na consolidação de uma cultura de segurança. “A gestão de frotas deixou de ser uma atividade puramente operacional para se tornar uma peça estratégica de inteligência de negócio”, avalia Ricardo Capello, gerente de Gestão de Transporte e Mobilidade da Petrobras.
Com trajetória consolidada na área e ampla experiência em gestão de frotas, Capelo foi homenageado pela AIAFA Brasil como o Gestor de Frotas do Ano 2025 nos Prêmios Frotas. O reconhecimento veio por sua atuação na renovação integral da frota de 2.700 veículos sem impacto operacional e à implantação do Centro Integrado de Controle de Mobilidade, com sistemas de telemetria, abastecimento e câmeras.
Da sede da base operacional da Petrobras em Santos (SP), Capello concedeu esta entrevista à revista AIAFANews, na qual destacou as vantagens de uma frota terceirizada, analisou a evolução dentro uma estratégia de transição energética justa e ressaltou que a segurança operacional é um valor inegociável.
O senhor foi nomeado “Gestor de Frotas do Ano 2025”, nos Prêmios Frotas da AIAFA Brasil. Como recebe esse reconhecimento?
Recebo com muita satisfação e senso de responsabilidade. São 14 anos de trajetória na Petrobras, e este prêmio é o reconhecimento de um trabalho contínuo para elevar o padrão da nossa mobilidade terrestre. Pessoalmente, é uma honra; profissionalmente, representa a validação de que o foco em processos estruturados, tecnologia e segurança coloca nossa gestão em um patamar de excelência reconhecido pelo mercado.
“Optamos pelo modelo de frota totalmente terceirizada, o que permite que nossa equipe foque na inteligência logística e na gestão da mobilidade”
A Petrobras recebeu o prêmio da categoria Gestão Eficiente de Frota Pública. A que se deve esse reconhecimento, na sua opinião?
Esse prêmio, conquistado pelo segundo ano consecutivo, deve-se à maturidade dos nossos processos e à capacidade de gerir uma operação complexa com foco em governança. Consolidamos um modelo onde a tecnologia embarcada e a integração de dados permitem uma gestão transparente e tecnologicamente avançada, mesmo com a complexidade de uma empresa de economia mista. Receber novamente esse importante reconhecimento externo demonstra que a gestão pública orientada traz resultados sólidos.
Em apenas seis meses, a Petrobras realizou a renovação completa da frota, envolvendo 2.700 carros, 15.000 condutores e 20 fornecedores diferentes. Como foi possível fazer uma renovação dessa magnitude sem qualquer impacto operacional?
O sucesso dessa renovação de magnitude recorde baseou-se em planejamento detalhado e contratos muito bem estruturados com nossos fornecedores. A chave foi a integração: não trocamos apenas o ativo físico, mas garantimos que 100% da frota entrasse em operação com suporte de tecnologia embarcada (telemetria e câmeras). Isso garantiu que a transição ocorresse de forma fluida, sem interromper as atividades dos condutores e consequentemente da companhia.
A área de frotas desenvolveu o Centro Integrado de Controle de Mobilidade, que promove o monitoramento contínuo e em tempo real dos veículos. Que resultados a empresa obteve com essa tecnologia?
O Centro Integrado de Controle de Mobilidade (CICM) consolidou-se como a inteligência central da nossa logística, funcionando como uma verdadeira “refinaria de dados” para a companhia. Sua implementação transformou o monitoramento passivo em uma gestão proativa e preditiva, permitindo atuar preventivamente na segurança viária e na eficiência operacional. Por meio do monitoramento, conseguimos tratar desvios e oferecer respostas rápidas a qualquer intercorrência em campo, o que elevou o padrão de segurança e a experiência de mobilidade dos nossos colaboradores.
Essa visibilidade total e controle proativo permitem otimizar toda a jornada de deslocamento, garantindo que os recursos sejam utilizados de forma inteligente. Como bem definiu Clive Humby, “os dados são o novo petróleo; são valiosos, mas se não forem refinados, não podem ser realmente usados”. Nesse contexto, o CICM é a grande refinaria da Petrobras, processando volumes massivos de dados para transformá-los em conhecimento estratégico que direciona nossas ações de mobilidade.
O departamento de frotas tem autonomia para tomar decisões, por exemplo, na hora de adquirir os veículos ou a aquisição é feita por licitação?
Como uma empresa de economia mista, a Petrobras realiza suas contratações via licitação, em estrita conformidade com a legislação vigente. Todavia, mantemos plena autonomia técnica para estabelecer diretrizes e requisitos rigorosos em nossos editais, assegurando que a frota seja equipada com o que há de mais avançado em tecnologia de segurança e telemetria. Essas especificações incluem critérios rígidos de qualidade, como limites de quilometragem e idade máxima para a entrada e permanência dos veículos no contrato, o que garante uma operação suportada por ativos modernos, confiáveis e de alta performance.

Então a frota é terceirizada?
Sim, optamos pelo modelo de frota totalmente terceirizada, uma decisão estratégica que oferece vantagens competitivas claras. Esse modelo nos confere agilidade na renovação tecnológica e desonera a companhia da gestão direta de ativos e da depreciação, permitindo que nossa equipe foque exclusivamente na inteligência logística e na gestão da mobilidade. Além disso, a terceirização simplifica a operação, uma vez que o abastecimento e a manutenção são geridos pelas próprias locadoras.
Um dos pilares da nossa gestão é a remuneração baseada na disponibilidade. Diferente de um modelo de aluguel fixo convencional, estabelecemos que os veículos são remunerados apenas quando estão aptos para o uso. Esse formato atrela o pagamento ao desempenho e incentiva a eficiência das locadoras em toda a cadeia de valor, garantindo o máximo aproveitamento dos recursos e a continuidade das atividades da Petrobras.
“A capacidade de converter dados gerados pela telemetria em ações será o divisor de águas entre uma gestão operacional e uma gestão estratégica”
Quais os modelos ou marcas de veículos predominantes na frota leve?
Devido à nossa natureza de empresa de economia mista, seguimos estritamente a legislação de licitações, sem estabelecer preferência por marcas ou modelos. O processo ocorre por meio de editais que definem os requisitos técnicos mínimos para cada categoria; após a contratação, as locadoras parceiras selecionam os veículos com base nessas exigências, considerando a disponibilidade de mercado e suas negociações com montadoras.
Embora a composição varie conforme os contratos, nossa frota é predominantemente focada em modelos de entrada, compactos e veículos operacionais: os automóveis Fiat Mobi e Cronos, Volkswagen Polo e Virtus, Renault Kwid e Hyundai HB20; as picapes Volkswagen Saveiro e Fiat Toro, destinadas a operações mais simples, além da Mitsubishi L-200 e Toyota Hilux para operações 4x4; e a Renault Master no segmento de vans.
Como a Petrobras aplica princípios de sustentabilidade em sua política de frotas?
Nossa gestão de frotas atua em total convergência com a estratégia de transição energética justa da Petrobras, transformando diretrizes ambientais em ações operacionais concretas. O foco central está na otimização da demanda e da eficiência energética: utilizamos sistemas de roteirização inteligente para consolidar trajetos e estabelecemos rotas com horários e pontos de embarque e desembarque predefinidos, o que reduz a quilometragem total percorrida e as emissões de carbono.
Complementamos essa estratégia com o uso intensivo de tecnologia para monitoramento em tempo real. Por meio da telemetria avançada, implementamos alertas para veículos com motor ligado em marcha lenta por mais de cinco minutos e monitoramos padrões de condução que resultem em alto consumo de combustível, permitindo intervenções educativas imediatas.
O senhor atua há quase 14 anos na Petrobras. Como a área de gestão de frotas evoluiu nesse período?
Evoluímos da simples gestão de ativos para a gestão de dados e inteligência. Saímos de um controle manual para um monitoramento em tempo real via CICM, onde a segurança e a eficiência operacional são agora os pilares centrais de cada decisão. Ao longo desses quase 14 anos na Petrobras, testemunhei uma transformação profunda. A gestão de frotas deixou de ser uma atividade puramente operacional, focada apenas na disponibilidade de veículos e manutenção básica, para se tornar uma peça estratégica de inteligência de negócio.
Como é a gestão do combustível?
A gestão de combustível da nossa frota é estruturada de forma indireta e estratégica por meio dos contratos de locação. O abastecimento é gerido pelas locadoras. Apesar da execução ser descentralizada, a Petrobras mantém total governança sobre o processo: detemos acesso integral aos dados de consumo e utilização de cada veículo. Essas informações são processadas e analisadas para identificar oportunidades de otimização e tratar eventuais desvios, garantindo que a operação esteja sempre alinhada às nossas diretrizes de sustentabilidade e controle de custos.
Quais os principais desafios operacionais e de infraestrutura que a Petrobras identifica para ampliar o uso de GNV em frotas corporativas? Como a empresa planeja superá-los?
A ampliação do uso de GNV em frotas corporativas enfrenta desafios que passam pela infraestrutura nacional e pelas particularidades da nossa operação. Como nossas atividades com frota locada envolvem viagens longas e deslocamentos em cidades do interior, a baixa capilaridade da rede de abastecimento nessas regiões torna-se um obstáculo para essa frota. Além disso, há uma limitação técnica relevante: a instalação dos cilindros reduz o espaço do porta-malas é um ponto sensível para uma frota composta majoritariamente por veículos compactos e picapes.
Adotamos uma estratégia de nichos. Mantemos o uso eficiente de GNV em operações específicas, como em Urucu (AM), e utilizamos o combustível de forma massiva em nossa operação urbana. Essa abordagem mista nos permite capturar os benefícios do gás natural onde ele é viável e já está disponível no mercado, enquanto mantemos estudos constantes para que a inovação na frota locada ocorra sem comprometer a severidade das nossas atividades em áreas remotas.

Que soluções tecnológicas foram implementadas na operação e como a Petrobras aprimorou a experiência de mobilidade dos colaboradores?
A Petrobras tem transformado a mobilidade corporativa por meio de um ecossistema digital que integra segurança e eficiência, estruturado em três pilares. Na Inteligência e Segurança Operacional, utilizamos o CICM para gerir tecnologias como telemetria avançada e videotelemetria. Na Gestão de Fretados, implementamos um sistema inteligente onde o colaborador realiza reservas e acompanha a localização do veículo em tempo real via app. E, com o foco em Novos Modelos de Uso, promovemos a transição da “posse” para o “uso” por meio do carsharing corporativo, reduzindo a frota ociosa.
A grande evolução desse ecossistema ocorrerá em 2026, com o lançamento do nosso Super App de Mobilidade. Esta ferramenta será o ponto central de toda a jornada, integrando em uma única interface os serviços de táxi, transporte por aplicativo, carsharing, o sistema de fretamento e a visão da frota.
Analisando a conjuntura nacional, quais são os desafios dos gestores de frotas e de mobilidade para 2026?
O grande desafio será a integração definitiva entre a gestão tradicional de frotas e os novos modelos de mobilidade sob demanda, tudo isso sob a pressão crescente por descarbonização e eficiência de custos. O mercado brasileiro ainda enfrenta gargalos de infraestrutura para eletrificação e GNV, o que exige dos gestores uma visão de “mix energético” em vez de uma solução única. Além disso, a capacidade de converter o imenso volume de dados gerados pela telemetria em ações que realmente melhorem a segurança e reduzam gastos será o divisor de águas entre uma gestão operacional e uma gestão estratégica.
“O gestor de frotas deve ser um guardião da vida. A tecnologia e o monitoramento precisam materializar o nosso maior valor: garantir que cada profissional retorne para casa com segurança”
Como a Petrobras tem se preparado para enfrentar esses desafios?
A Petrobras tem se antecipado a esse cenário focando em três frentes: tecnologia unificada, governança e transição energética justa. Estamos consolidando nossa inteligência de dados e nos preparando para o lançamento do Super App de Mobilidade. Simultaneamente, avançamos na estratégia de transição energética justa por meio de ações concretas de eficiência, como a roteirização inteligente e o monitoramento rigoroso de desperdícios. Além disso, mantemos o olhar no futuro com testes pilotos de veículos elétricos e híbridos para avaliar sua compatibilidade com o rigor das nossas operações.
Que conselhos o senhor daria para gestores de frotas que estão começando na profissão?
Meu conselho fundamental é: foquem em parcerias, processos e, acima de tudo, na segurança operacional como valor inegociável. Nenhuma frota, por maior ou menor que seja, é gerida de forma isolada. O sucesso depende da construção de um ecossistema colaborativo que envolva equipes internas, fornecedores e as diversas áreas da empresa em torno de um objetivo comum de excelência. É preciso entender que o ativo físico – o veículo – é apenas uma parte da equação; a verdadeira gestão acontece na inteligência dos dados e na cultura de segurança que você implementa.
Invistam em tecnologia e em processos transparentes que permitam uma visão preditiva. Em um mercado cada vez mais complexo, a capacidade de monitorar sua operação em tempo real com total governança é o que garantirá longevidade à sua carreira e eficiência à sua companhia. Contudo, lembrem-se de que a tecnologia deve ser o meio e nunca o fim.
O gestor de frotas moderno deve ser um guardião da vida. A tecnologia e o monitoramento precisam servir para aprimorar a experiência do colaborador e, acima de tudo, para materializar o nosso maior valor: garantir que cada profissional retorne para casa com segurança. Quando a segurança operacional é tratada como valor, a eficiência e os resultados tornam-se uma consequência natural de uma gestão ética e profissional.
Fotos: Lienio Medeiros
Texto: Liana Aguiar

