Entrevistas
"Passamos de uma gestão de frota para uma gestão de vidas"
Fernando Augusto da Paz, Gestor de Vidas e Mobilidade da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Ele saiu do Paraná com 18 anos e chegou ao Rio de Janeiro sozinho. Sua trajetória profissional passou por diversos caminhos, e em determinado momento chegou a caminhar 20 km por dia na praia para vender sanduíches naturais. “Nunca me deixei vencer. Sempre corri atrás, sempre objetivando o melhor, estudando, e assim fui crescendo”, lembra Fernando Augusto da Paz.
Essa determinação e garra o acompanham ao longo da carreira, e hoje ele é uma referência entre gestores de frotas brasileiros. Gestor de Vidas e Mobilidade da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), idealizador e cofundador dos comitês de gestores de frotas do Rio (CCGM-RJ) e de São Paulo (CGFM-SP), conselheiro consultivo da AIAFA. As credenciais de Fernando revelam uma vasta experiência e que sua contribuição ativa para a profissionalização do setor e pelo reconhecimento dos gestores de mobilidade.

Esse engajamento já lhe rendeu homenagens da AIAFA Brasil nos Prêmios Frotas, vencendo na categoria de Desenvolvimento Profissional do Setor em 2022, pelo CCGM-RJ, e em 2023 e 2024, pelo CGFM-SP, além de ter sido premiado na categoria Redução de Emissões em 2024, pela CNC. Um prêmio, aliás, conquistado graças às medidas adotadas para uma frota mais sustentável.
Da unidade da CNC no Rio de Janeiro, Fernando explica à AIAFANews os desafios e conquistas da área de frotas da patronal, fala sobre a evolução do papel de gestor de mobilidade e vislumbra que o futuro da gestão caminha na direção da sustentabilidade.
O senhor se identifica como gestor de vidas e mobilidade, poderia nos explicar essas novas funções? No mercado em geral, como tem sido a transição do gestor de frotas para gestor de mobilidade?
O gestor de frotas sempre foi, em primeiro lugar, um gestor de vidas. Além de administrar os veículos, garantindo sua eficiência, segurança e controle de custos operacionais, enfrenta o desafio de ter uma atenção especial ao bem-estar dos colaboradores, tanto física quanto mentalmente. Se o colaborador não está bem, ele pode, fatalmente, ser um potencial fonte de acidentes.
Com o passar dos anos, o gestor de frota tem conseguido se estabelecer no mercado pelo seu profissionalismo, ganhando credibilidade e respeito. Somos responsáveis, direta ou indiretamente, por fazer com que muitas pessoas retornem aos seus lares no final do dia em segurança. Esse trabalho é árduo e constante, mas é feito com muito compromisso, responsabilidade e, acima de tudo, amor pelo que fazemos.
Há 14 anos, o senhor assumiu a gestão da mobilidade da CNC e tem ampla e reconhecida experiência na área de frotas. Quais são as principais características e desafios do departamento dentro da patronal?
Quando iniciei na CNC, foi um grande desafio, pois migrei de uma gestão de frota de veículos pesados e utilitários para assumir a gestão de uma frota de veículos executivos. Meu objetivo era aplicar meus conhecimentos para aprimorar processos, implementar novas iniciativas e alcançar uma gestão mais eficiente. Foi um desafio e tanto! Mas, como sempre digo, é preciso conquistar patrocinadores internos. Com muito comprometimento e convicção, conseguimos apoio do nosso presidente, José Roberto Tadros, e de toda a diretoria. Assim, demos um salto de evolução, passando de uma gestão de frota para uma gestão de vidas, mobilidade e frota.
"Nossos processos são todos integrados, com sistemas modernos que garantem uma gestão focada na segurança e no bem-estar de todos"
Hoje, nossos processos são todos integrados, com sistemas modernos que garantem uma gestão focada na segurança e no bem-estar de todos. Nosso compromisso é com o aperfeiçoamento do profissional, para que ele esteja sempre preparado e motivado a atender com excelência.
A frota da CNC é própria ou terceirizada?
Atualmente é própria. Realizamos constantemente estudos sobre terceirização, mas ainda não achamos viável devido às especificidades do nosso serviço, que exige um pronto atendimento em alguns casos. Além disso, o custo-benefício dessa mudança ainda não se mostrou atrativo. No entanto, nada impede que, no futuro, possamos migrar nossa operação, caso entendamos que a terceirização possa oferecer um serviço diferenciado e mais eficiente.
Que critérios o senhor e sua equipe adotam na hora de escolher um modelo para a frota?
Priorizamos a segurança acima de tudo, então todos os veículos devem possuir certificação Latin NCAP. Nosso processo é muito criterioso nessa parte. O segundo critério é a sustentabilidade, com veículos mais eficientes. Em nossas renovações, sempre buscamos alternativas que contribuam para a preservação do meio ambiente. Em 2023, nossa frota passou a ser composta, em 80%, por veículos híbridos abastecidos com etanol. Nossa meta é chegar a 100% nas próximas renovações.
"Em 2023, nossa frota passou a ser composta, em 80%, por veículos híbridos abastecidos com etanol. Nossa meta é chegar a 100% nas próximas renovações"
E com que frequência a frota é renovada?
Nossos veículos seguem um plano de renovação de média de quatro a cinco anos, mas que podem ser alterados conforme o tipo de uso e a quilometragem. Além disso, seguimos rigorosamente o plano de manutenção estabelecidos pelas montadoras para todas as revisões, e a qualquer indicativo de falha ou necessidade os veículos são retirados imediatamente da operação e enviados à concessionária, pois entendemos que qualquer anomalia pode trazer risco e priorizamos a segurança.

A CNC tem uma política de sustentabilidade que serve de inspiração para outros partícipes da confederação. Como essa política se reflete na área de frotas?
Desde 2012, a CNC mantém o Programa Ecos, uma iniciativa dedicada a promover a sustentabilidade por meio de ações, projetos e iniciativas. O objetivo é fortalecer o desenvolvimento sustentável dentro das entidades do Sistema Comércio, sempre em parceria com os departamentos nacionais do Sesc e do Senac. Em 2023, a CNC deu um passo importante ao renovar a frota de veículos, substituindo os modelos a combustão por veículos híbridos. Essa mudança um pontapé inicial para integrar a sustentabilidade às operações diárias. Depois disso, a estratégia evoluiu ainda mais: além dos veículos híbridos, a frota total passou a ser abastecida com 100% de etanol, reforçando o compromisso com alternativas mais sustentáveis.
Que resultados essa contribuição da área de frotas ao Programa Ecos trouxe em termos de redução de emissões?
Foi um daqueles desafios que testam tudo: criatividade, resiliência e, principalmente, nossa capacidade de transformar a cultura. Poderíamos ter seguido pelo caminho mais óbvio – renovar a frota com veículos híbridos e pronto. Mas decidimos mirar alto. Se já tínhamos veículos híbridos e flex, por que não ousar e reduzir ainda mais as emissões? Por que não apostar em um combustível de fontes verdadeiramente renováveis? Com o apoio do Programa Ecos, conseguimos aprovar mais essa etapa da jornada.
"Nos últimos 12 meses, compensamos um total de 12,6 toneladas de CO2. Olho para tudo o que construímos com orgulho"
Mas havia um ponto pendente: cerca de 20% da nossa frota ainda não era híbrida nem utilizava etanol. Precisávamos encontrar uma solução, e ela vinha da palavra-chave: compensação. Entramos em contato com nossa parceira de gestão de abastecimento, a Ticket Log, e conhecemos o programa Move for Good. Por meio dele, é possível calcular a quantidade de gases de efeito estufa emitidos e compensar essas emissões. Nos últimos 12 meses, compensamos um total de 12,6 toneladas de CO2. Hoje, olho para tudo o que construímos com orgulho. Mais do que resultados, deixamos um legado. Plantamos uma semente que, quem sabe, pode inspirar outros gestores, colegas e amigos a seguirem pelo mesmo caminho.
E como é a gestão do combustível?
A parceria com a Ticket Log foi essencial para aprimorar nossos controles e a parametrização de custos, um verdadeiro divisor de águas na gestão da nossa frota. Ter 80% da frota composta por veículos híbridos abastecidos com etanol é uma conquista que reflete nosso compromisso com práticas mais sustentáveis. Mas não paramos por aí. Seguimos atentos às oportunidades que possam tornar nossa frota ainda mais limpa e eficiente.
O senhor também é idealizador e um dos fundadores dos comitês de gestores de frotas do Rio e de São Paulo. Em que contexto esses coletivos foram criados?
Em nossos encontros como gestores, durante eventos e reuniões do setor, sempre acabávamos trocando experiências, desabafando sobre os desafios do dia a dia e percebendo que, muitas vezes, estávamos enfrentando as mesmas dores e sozinhos. E foi desse sentimento de empatia, de pertencimento, de vontade de fazer diferente que nasceu a ideia dos comitês. Um espaço construído por nós e para nós. Um lugar onde nos encontramos para crescer juntos, com reuniões regulares, apoio mútuo e a missão de dar mais visibilidade e voz ao gestor de frotas.
"O propósito dos comitês é claro: valorizar a nossa profissão, apoiar quem está na jornada e fortalecer esse mercado com mais respeito e reconhecimento"
O mais bonito de tudo isso? É que é um trabalho voluntário, feito com dedicação e coração aberto. Sabemos o quanto essa função é desafiadora e o quanto, infelizmente, ainda é pouco reconhecida. Nosso propósito é claro: valorizar a nossa profissão, apoiar quem está na jornada e fortalecer esse mercado com mais humanidade, respeito e reconhecimento.
Os gestores do CGFM-SP estão mobilizados pelo reconhecimento oficial da profissão na Classificação Brasileira de Ocupação (CBO). Qual o objetivo dessa reinvindicação?
Essa iniciativa do nosso comitê vem ao encontro da valorização do gestor de frotas, ao permitir que possamos parametrizar os salários desses profissionais, diminuindo as discrepâncias existentes no mercado. Sem uma regulamentação clara, infelizmente muitos gestores acabam migrando para outras áreas. Por isso, essa é uma forma concreta de incentivar a profissionalização dos gestores, mostrando a importância do seu papel e fazendo com que as empresas reconheçam e invistam cada vez mais nesses profissionais essenciais.
Também é um desejo dos gestores de mobilidade a criação do “Dia do Frotista”, pauta que já está em trâmite na Alesp, no projeto de lei 595/2025. Na sua opinião, ter uma data comemorativa poderia contribuir para dar mais visibilidade à categoria?
Esse é o reconhecimento que tanto desejamos. Sem dúvida, isso representa uma grande vitória para todos nós e demonstra nosso compromisso, nossa união e, acima de tudo, a certeza de que merecemos ser reconhecidos.

O senhor é conselheiro consultivo da AIAFA, que completa 15 anos de atuação no Brasil. Como avalia as ações da entidade em favor da profissionalização da gestão de frotas?
A AIAFA é uma grande aliada e parceira de todos os gestores de frota, promovendo eventos exclusivos para nós. É fundamental o elo que a Associação cria entre gestores e fornecedores. Essa proximidade gera uma troca rica de experiências e possibilita uma sinergia que, muitas vezes, na correria do dia a dia, não conseguimos estabelecer. Ser inspirado pelos depoimentos e pelas experiências compartilhadas nesses encontros é, sem dúvida, uma das maiores recompensas.
Na sua opinião, quais serão as tendências e os desafios para os gestores de frotas e de mobilidade para um futuro próximo?
Os gestores de frotas e de mobilidade têm um futuro muito promissor, especialmente na direção da sustentabilidade. Acredito que veremos uma adoção cada vez maior de veículos elétricos e soluções mais ecológicas. Além disso, a tecnologia continuará evoluindo rapidamente, trazendo sistemas de monitoramento em tempo real, Inteligência Artificial e análises de dados que ajudam a otimizar rotas, reduzir custos e tornar o dia a dia dos gestores muito mais eficiente.
Claro que os desafios existem e serão muitos. Será necessário se adaptar a novas regras ambientais, gerenciar frotas cada vez mais diversificadas e investir pesado em tecnologia e capacitação profissional. Meu conselho? Fiquem sempre atentos às novidades tecnológicas, às mudanças na legislação e às tendências de mercado, como mobilidade compartilhada e veículos autônomos. Assim, vocês conseguem se manter não apenas competitivos, mas também preparados para um cenário que está em constante transformação.
Que conselhos o senhor daria para quem está começando na área?
Meu conselho, de coração, é: mergulhe de cabeça nesse universo incrível que está em constante transformação! Busque aprender sempre, se mantenha atualizado e abrace as novidades com coragem e entusiasmo. Tecnologias como a Inteligência Artificial, veículos elétricos e tantas outras inovações podem parecer desafiadoras no começo, mas são verdadeiras aliadas que vão revolucionar a sua forma de trabalhar e levar sua gestão a um novo patamar. Nunca subestime o poder da sua equipe! Valorize cada ideia, escute com atenção e crie um ambiente de colaboração e confiança. E lembre-se: o que você faz vai muito além do dia a dia, você está contribuindo para construir um mundo mais sustentável, mais inovador e cheio de possibilidades.
Texto: Liana Aguiar
Fotos: Guarim de Lorena



